A PSICANÁLISE É MAIS URGENTE DO QUE NUNCA!

 

Acordamos com o brilho da tela. Antes do corpo, desperta o dedo que desliza. Antes da fala, chegam as notificações. É assim que o dia começa: o olhar lançado para fora antes mesmo de se encontrar por dentro. 

E, nesse gesto quase automático, algo se revela: não é só hábito, mas sintoma de um tempo em que a presença foi substituída pela conexão e o silêncio, pela atualização.

Vivemos cercados de imagens e a cada toque, uma pequena descarga de prazer, e em cada pausa, cada vez mais inquietação. A pressa tornou-se a linguagem comum, e a espera, um incômodo difícil de suportar. Assim, o sujeito contemporâneo convive com um excesso de vozes que costuma apagar a sua própria voz, ele não se ouve, não se percebe...

O ódio também encontrou seu palco: ele se espalha nas telas como uma epidemia do olhar ferido. 

Há algo de antigo nesse fenômeno: a dificuldade humana de lidar com o limite, com a diferença, com a falta que nos constitui. A tecnologia só fez ampliar o espelho, devolvendo-nos, em alta definição, o mal-estar que sempre habitou a civilização. 

Nesse cenário saturado de imagens e urgências, a psicanálise permanece como um lugar quase anacrônico, como um espaço onde ainda é possível sustentar o tempo das coisas... onde o silêncio não é um mero vazio, mas um terreno fértil para abertura de novas possiblidades. 

Enquanto o mundo pede adaptação, produtividade e sucesso, a análise convida à pausa. 

A escuta psicanalítica não busca corrigir o sujeito, mas acompanhá-lo na travessia de suas próprias contradições, sintomas, angústias. Ali, o sintoma, em vez de ser apagado, é ouvido como uma forma de dizer algo que ainda não pode ser colocado em palavras.

Talvez por isso a psicanálise continua tão necessária: porque ela aposta na singularidade quando tudo tende à generalização. 

Porque ela acolhe o que sobra, o que falha, o que escapa ao algoritmo... em tempos em que tudo precisa fazer sentido, ela aceita o não saber como condição de existência!

Escutar aqui, escutar assim, é um gesto político: é recusar o imperativo de ajustar-se, é permitir que o sujeito descubra o que realmente o move, sem a pressa de caber, em se rotular, em se resolver...

A psicanálise é, afinal, essa insistência. 

Um gesto que desacelera o tempo e devolve espessura à palavra. Um lugar onde o sujeito pode se ouvir sem ter que performar, onde o sofrimento ganha nome, e o inominável pode ser sustentado.

Num mundo que nos ensina a deslizar, ela nos ensina a sustentar. 

Em tempos de excesso, ela nos devolve a falta: não como ferida, mas como possibilidade de criação.

Porque é justamente nesse vazio, que algo de nós insiste em nascer.

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