COMO SABER SE A ANÁLISE É PARA VOCÊ?

Eu percebo que, com o aumento da conscientização sobre a importância do cuidado com a saúde mental, as pessoas têm procurado mais por serviços de psicologia e também descobrindo que a psicologia não é uma coisa só. 

Foi somente na graduação que eu descobri isso, que não existe apenas uma teoria psicológica, mas várias! E cada uma delas com seus métodos, objetivos e especificidades. 

Entendo que, a psicanálise não deixa de ser uma teoria e prática psicoterapeutica tanto quanto as outras abordagens dentro desse grande campo que busca estudar e compreender o ser humano que é a psicologia.

E mesmo dentro da psicanálise não existe consenso! 

Assim como existem psicologiaS, também existem psicanáliseS.

Só dentro da Psicanálise, Zimerman (2008), classificou 7 escolas: freudiana, kleiniana; bioniana, winnicottiana, lacaniana, psicologia do self e psicologia do ego (essas últimas, mais criticadas por diminuirem o papel do inconsciente na vida consciente). 

As vertentes psicanalíticas possuem suas diferenças substanciais que justificam a separação em diferentes escolas, mas também é claro, compartilham uma base comum em Freud, criador da Psicanálise. 

Já dentro da Psicologia, também temos outras tantas abordagens, como a Terapia Cognitivo Comportamental, a Análise do Comportamento, a Psicologia Analítica, a Gestalt, a Psicologia Humanista, a Existencialista/Fenomenológica, dentre inúmeras outras. 

Se para um estudante, que está em contato com essas teorias diariamente em seus anos de graduação, já é difícil se posicionar dentro desse grande espectro, para o leigo então, mais ainda. 

Na minha experiência, na grande maioria das vezes, as pessoas buscam terapia porque querem ajuda para lidar com seu sofrimento e não sabem de nada disso. 

Elas procuram ajuda profissional e não precisam mesmo saber quais estudos teóricos norteiam as práticas dos profissionais que vão prestar esse serviço, o que elas precisam ter garantido é que, independente da linha teórica seguida, o profissional seja ético em sua atuação.

As pessoas não precisam, mas, podem querer saber disso.

E se você lê esse texto, pode ser que seja uma dessas pessoas. 

Que se interroga sobre qual abordagem do o ser humano mais tem a ver com você. 

Perceba que eu disse "tem mais a ver", não "a melhor", não "a mais indicada" ou a "certeira".

Porque (e isso tem a ver com a minha linha teórica), eu não trabalho com a ideia de que seja possível fazer a "melhor" escolha para nada nessa vida, pelo simples fato de que, a gente vai saber dos resultados de qualquer escolha só depois... 


Mas voltando ao ponto, como saber se a psicoterapia psicanalítica é pra você? 

E eu começaria a pensar sobre isso abrindo perguntas como: de que maneira você investiga o que é bom ou não pra você? 

Você pergunta e pede conselhos para outras pessoas sobre o ponto de vista delas? Você faz pesquisas na internet? Escreve a respeito? Lê a respeito? Pensa a respeito? 

Você pode usar de tudo isso, perguntando para pessoas da área que você conhece, fazendo pesquisas na internet que tem muito conteúdo sobre toda e qualquer abordagem dentro da psicologia e da psicanálise. Você poderia, enquanto faz tudo isso, refletir e escrever sobre o que ressoou dentro de você, o que te chamou mais a atenção e assim ir separando o seu joio do trigo. 

Aí se você me disser, mas Jessica, eu não sei fazer isso de investigar o que quero, eu te devolveria: mas você quer fazer isso? 

Porque se quiser investigar o que você quer, sim a análise é uma indicação pra você. 

E se for o caso de você até conseguir investigar, mas ter mais dificuldade em escolher e sustentar, também a análise é uma indicação pra você.

Não que as outras abordagens também não sejam, mas delas eu não posso dizer porque não as estudo.

O que eu posso dizer é que, um dos efeitos de um processo de análise é essa abertura a investigação constante de si mesmo. 

Uma investigação que permite deslocamentos, inclusive o importante deslocamento da posição de objeto (o outro escolhe por mim) para a posição de sujeito (eu escolho por mim).

Muitas vezes, para termos a resposta para uma pergunta é preciso antes fazermos muitas outras perguntas!

Fazer análise para descobrir se é pra mim ou não?

É uma possibilidade! 

Em análise é possível se questionar sobre tudo, inclusive, sobre ela!


Mas se eu puder dizer mais algumas coisinhas que possam te ajudar a pensar...

...diria que, em uma análise, você deve encontrar o ambiente seguro e acolhedor que deveria encontrar em qualquer forma de psicoterapia, mas como diferencial encontrará também, uma escuta que se baseia na ideia de que, existe algo para além do que você está falando e que você está inconscientemente negando ou escondendo de si mesmo, porque você não é "senhor em sua própria casa". 

Explico. 

Os psicanalistas trabalham com o conceito de inconsciente. E isso significa que, isso que no senso comum chamamos de Eu, a consciência, é apenas uma parte de todo o aparelho psíquico, e não é a maior parte dele.

Os sonhos, considerados por Freud a via direta de acesso ao inconsciente, nos ilustram bem essa ideia. O funcionamento do inconsciente é como o funcionamento do sonho, com seus deslocamentos, condensações, e diversos aspectos e características de funcionamento muito diferentes da consciência, que busca uma organização. 

Nós temos notícias do inconsciente através daquilo que nos escapa: nos sonhos, mas também nos nossos lapsos e erros cotidianos, nas nossas piadas, nos nossos deslizes, nas nossas inibições, sintomas e angústias. 

Mas pra isso do inconsciente possa ser visto, reconhecido, é preciso uma escuta treinada para isso, que esteja norteada por aí. 

Nós psicanalistas entendemos que nós seres humanos possuímos essa dimensão e que portanto, não é nada simples caminhar pela vida sem se tornar o maior inimigo de si mesmo e daí vem grande parte do nosso sofrimento, de nossas neuroses...

A pulsão de morte, a compulsão a repetição, a luta contra a mudança... temos algo de muito mortífero dentro de nós e não existe manual de instrução que dê conta de acabar com isso. 

O que existe, que é onde nós analistas apostamos, é a possibilidade de dar palavra a tudo isso.

Analisar. Articular. Reconhecer. Aceitar. Elaborar. Sublimar... 

Se falar, se pensar e construir uma história sobre si mesmo enquanto se separa dos ditos e projeções dos outros, criando os próprios ditos, pra poder viver com mais autenticidade. 

Cura completa não, mas talvez um tanto a mais de autenticidade seja um efeito esperado de uma análise! (adianto que nem todos ao seu redor podem gostar disso rs)

E tudo isso acontece de forma muito sutil, com respeito ao tempo de cada um, as necessidades de cada momento, sustentando as repetições necessárias as elaborações... por isso as análises costumam durar muitos anos, é impossível ser diferente. 

É investimento, de tempo, financeiro, emocional...

Caso você busque algo mais rápido ou pontual, mais sugestivo por parte do terapeuta, com objetivos mais definidos, talvez outras abordagens possam lhe interessar mais, massssss, vale ressaltar também que a psicoterapia psicanalítica breve existe, e é praticada em instituições como hospitais e faculdades por exemplo, produzindo resultados positivos como alívio de sintomas e sofrimentos com poucas sessões. 

Isso significa que, mesmo em poucas sessões, um processo psicanalítico, pode sim ser muito proveitoso e pode ajudar na resolução de questões mais pontuais, urgentes, que demandam resolução em curto prazo. 

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Bom, nunca é demais lembrar que, caso você tenha tido alguma experiência ruim com a psicoterapia, mas sinta que precisa dessa ajuda, vale muito a pena tentar de novo, pois em todas as abordagens existem sim profissionais éticos, sensíveis e capacitados para acolher a complexidade humana, se puder continuar procurando, tenho certeza que encontrará algum. 😉 


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