O INÍCIO DE TUDO

Imagine Viena no final do século XIX: ruas movimentadas por carruagens, cafés cheios de intelectuais e um jovem médico intrigado com o que parecia escapar à medicina tradicional. Esse médico era Sigmund Freud, e sua inquietação mudaria para sempre a forma como compreendemos a mente humana.

Formado em medicina, Freud dedicou-se inicialmente a neurologia. Com o tempo, porém, começou a lhe chamar a atenção os mistérios da histeria, uma doença que acometia muitas mulheres naquele contexto e que era caracterizada por um conjunto de sintomas físicos como paralisias, desmaios, cegueiras, e dores sem causa orgânica aparente. Dar um lugar de fala para essas pacientes foi o primeiro ato revolucionário de Freud e marca o início do que viria a ser a psicanálise.

Foi ouvindo essas pacientes que Freud começou a construir ao mesmo tempo: uma teoria sobre o funcionamento psíquico, um método de investigação sobre o psíquico e uma técnica psicoterapêutica a partir disso. É a todo esse grande campo do saber que nos referimos quando falamos de Psicanálise. 

Um marco decisivo para o nascimento da psicanálise foi o encontro de Freud com Joseph Breuer, por volta de 1877, que foi quem lhe apresentou o método catártico, uma abordagem terapêutica utilizada por Breuer no tratamento de pacientes histéricos. Essa técnica consistia em conduzir o paciente, sob hipnose, à recordação de experiências traumáticas, permitindo que emoções reprimidas fossem expressas, o que resultava no alívio dos sintomas. O termo “catarse”, de origem grega, remete à ideia de purificação emocional, conceito que remonta a Aristóteles, que o associava ao efeito das tragédias teatrais sobre os espectadores. Freud e Breuer retomaram essa noção em sua obra conjunta Estudos sobre a Histeria (1895), onde descreveram como a rememoração dos traumas e a ab-reação dos afetos poderiam contribuir para a melhora clínica dos sintomas histéricos.

Outro encontro igualmente fundamental ocorreu em 1885, em Paris, com o célebre médico Jean-Martin Charcot, famoso por seus experimentos com hipnose em pacientes histéricos. Suas demonstrações clínicas impressionaram profundamente Freud, que o manteve como referência por toda a vida. No entanto, com o tempo, Freud começou a divergir das concepções de Charcot, afastando-se gradualmente de sua influência para seguir um caminho teórico próprio, que desembocaria na criação da psicanálise (Roudinesco; Plon, 1998).

Logo após o encontro com esses mestres, Freud percebeu que não era um bom hipnotizador, além do fato de que a hipnose ainda impunha outros limites: nem todos os pacientes se deixavam hipnotizar, o alívio dos sintomas era passageiro e a hipnoze não permitia a análise dos mecanismos psíquicos envolvidos na formação dos sintomas.

Foi então que Freud resolveu abandonar a hipnose e começou a tentar induzir os seus pacientes a regredir sem usar esse método, mas fazendo perguntas e assumindo uma postura de investigador ativo. Nesse momento, uma de suas pacientes (Emmy von N.) lhe disse algo como "Cala a boca Freud e deixa eu falar! Só me escuta!" (haha) e ele com sua sensibilidade e humildade fez o que os médicos de sua época não ousariam fazer, calou e escutou.

E ao escutar, Freud começou a perceber que mesmo sem a hipnose, os pacientes naturalmente retornavam as origens de seus sintomas. Surgia assim a técnica da associação livre, que é utilizada até hoje e consiste em pedir que o analisante apenas fale tudo que lhe vier a cabeça, sem julgamento moral, independente do quanto considere aquilo importante ou não. Freud percebeu que, nesse fluxo aparentemente caótico, brotavam lapsos, esquecimentos, sonhos e contradições que revelavam algo muito mais profundo: o inconsciente.

Essa descoberta marcou uma virada radical. O que antes era visto como “sem sentido” ganhou significado. Cada ato falho, cada sonho, cada sintoma passou a ser compreendido como uma mensagem disfarçada do inconsciente, uma tentativa de expressão de conflitos e desejos reprimidos.

A partir dessas observações, Freud começou a construir uma teoria ousada: a de que nossa vida psíquica é movida por forças e mecanismos inconscientes, e portanto, desconhecidos de nós mesmos, mas determinantes em nossas escolhas, modos de ser, sintomas... "o eu não é senhor em sua própria casa", quer dizer que, somos muito mais do que isso que supomos ser e isso que não sabemos de nós nos governa muito mais do que gostaríamos de admitir. 

Sua obra mais famosa, A Interpretação dos Sonhos (1900), consolidou essa visão ao propor que os sonhos são “a via régia para o inconsciente", o caminho mais direto para acessarmos esse outro lado desconhecido de nós mesmos. 


A vida de Freud não foi fácil. Enfrentou o antissemitismo de uma Viena conservadora, dificuldades financeiras e crises pessoais. Mesmo assim, manteve-se obstinado em explorar as profundezas da mente. Aos poucos, reuniu ao seu redor uma rede de discípulos e colaboradores que levariam a psicanálise além da Áustria, transformando-a num movimento mundial.

Mais de um século depois, a psicanálise continua viva nas clínicas, nas universidades, nas instituições, nos movimentos intelectuais, nas artes... 

O legado de Freud ultrapassou os consultórios: ele nos ensinou que somos habitados por algo que não podemos conhecer nem controlar completamente e isso muda tudo. 


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