PSICANÁLISE E ARTE

Às vezes olhamos um quadro, ouvimos uma música ou assistimos a um filme e sentimos que aquilo nos toca de um jeito difícil de explicar, como se a obra soubesse alguma coisa sobre nós que nós mesmos ainda não conseguimos colocar em palavras.

Para Freud, a arte era uma forma sofisticada de expressão do inconsciente. 

Em textos como Escritores criativos e devaneio (1908), ele aproxima o artista da criança que brinca: alguém que cria mundos imaginários investidos de desejo, fantasia e emoção. A obra de arte apareceria então como uma espécie de continuação do sonho em plena vigília.

Não por acaso, Freud também comparava a criação artística ao funcionamento dos sonhos. Ambos condensam imagens, deslocam sentidos e transformam conflitos psíquicos em cenas simbólicas. A arte permitiria que desejos inconscientes encontrassem alguma forma de expressão sem precisarem aparecer diretamente.

Foi dessa ideia que nasceu um dos conceitos mais importantes da psicanálise: a sublimação.

A sublimação na psicanálise freudiana é o processo pelo qual a energia pulsional, especialmente ligada ao desejo e à sexualidade, se transforma em produção cultural: arte, literatura, ciência, filosofia...

E aqui começa um grande impasse porque durante muito tempo, muitos psicanalistas passaram a interpretar obras de arte quase como sintomas clínicos de seus autores, como se um quadro pudesse ser reduzido aos conflitos reprimidos do pintor.

O próprio Freud, em seu famoso texto sobre Leonardo da Vinci, tenta explicar aspectos da obra do artista a partir de sua infância e de seus conflitos inconscientes e esse tipo de leitura começou a receber críticas importantes ao longo do século XX.

Existe alguma coisa na arte que ultrapassa a biografia de quem a criou e toca algo coletivo, humano, compartilhável.

Talvez seja por isso que tantas obras provoquem em nós uma sensação estranha e familiar ao mesmo tempo, algo como o que Freud chamou de Unheimlich  “O Estranho”, uma tipo de experiência inquietante em que algo parece ao mesmo tempo conhecido e desconhecido, íntimo e perturbador, como se certas obras fizessem emergir algo que já estava em nós.

A arte transforma em imagem, som, narrativa e estética aquilo que muitas vezes ainda não conseguimos elaborar simbolicamente. 

Algumas obras são atemporais, continuam vivas mesmo décadas depois de terem sido criadas, porque  elas não dizem respeito apenas aos conflitos individuais de quem as produziu, mas a algo mais específico da experiência humana como um todo.

Nesse sentido, tanto a arte quanto a psicanálise parecem se aproximar porque ambas trabalham com aquilo que escapa, ambas trabalham com o enigmático. 

Em um mundo cada vez mais atravessado por explicações rápidas, diagnósticos e tentativas de transformar tudo em algo completamente compreensível, arte e psicanálise aparecem como formas de resistência caminhando na direção oposta ao recolocar em cena aquilo que escapa, o vazio, o desejo, o inconsciente e a impossibilidade de um sentido totalmente fechado.

Enquanto a psicanálise tenta fazer emergir algo disso pela fala, a arte materializa essas rupturas em imagens, sons, narrativas e experiências estéticas que muitas vezes nos deslocam sem que saibamos exatamente explicar por quê.


REFERÊNCIAS:

FREUD, S. (2014). O estranho. In I. Pereira (Org.), Escritos sobre literatura (S. Krieger, Trad., pp. 33-77). São Paulo: Hedra. (Obra original publicada em 1919)

FREUD, S. (2015b). Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci. In Obras Incompletas de Sigmund Freud: Arte, literatura e os artistas (E. Chaves, Trad.). Belo Horizonte: Autêntica. (Obra original publicada em 1910)  

MARSILLAC, Ana Lúcia Mandelli de; BLOSS, Gerusa Morgana; MATTIAZZI, Thiciara. Da clínica à cultura: desdobramentos da pesquisa entre psicanálise e arte. Psicologia clínica e psicanálise, v. 19, n. 3, p. 787-808, Rio de Janeiro, 2019. 

RAFFAELLI, Rafael. Psicanálise e arte: a cruz da sublimação. Revista de Estudos de Psicologia, UFSC, Florianópolis, vol. 13, n1, p. 11-18, abr. 1996.

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