Falando de morte

Allegory of Death (1855–1865)

A morte é um mistério que está sempre à nossa espreita.

Inúmeras teorias são criadas desde o início dos tempos na tentativa de compreendê-la, de dar à morte algum sentido.

Apesar dos esforços humanos ao longo da história, das crenças e de toda a fé, a morte permanece o maior dos mistérios e, ao mesmo tempo, nossa única certeza.

É como se a morte fosse esse grande buraco negro em torno do qual orbitamos. 

Existe ali, esse enorme mistério ao redor do qual acontece tanta vida, tanta luz, tanta vibração. 

Temos esse grande vazio que nos fascina e nos intriga e, em torno dele, costuramos vida.

Meu último domingo foi particulamente especial e embalado por esse tema. 

Li o livro A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, e assisti ao filme A Voz de Hind Rajab, dirigido pela cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania. 

Um livro que tem a morte estampada no título e um filme que retrata um acontecimento sangrento envolvendo o genocídio palestino.

Chorei em três tempos nesse domingo.

De manhã, terminei o livro aos prantos e sigo em processo de digestão até agora. 

Mais do que um retrato da morte, li a história de alguém que morreu em vida. Alguém cuja luz foi se apagando aos poucos através da própria neurose, na adaptação constante, na obediência, no cumprimento de expectativas que faziam sentido para os outros sem nunca se perguntar o que fazia sentido para si.

À tarde, o filme abalou todas as minhas estruturas com a voz real de Hind Rajab, uma menininha que estava com a família dentro do carro quando o local foi bombardeado por Israel. 

O filme dramatiza um acontecimento real, ocorrido naquele lugar do mundo onde um genocídio segue acontecendo enquanto nós, daqui, continuamos nossas vidas como se nada disso existisse.

A morte está sempre à espreita, mas curiosamente o que mais ficou comigo naquele domingo não foi a morte.

Foi a vida.

À noite, vi no Fantástico a matéria de um homem que convive há alguns anos com um câncer em metástase e que, sabendo da proximidade do fim, resolveu organizar um velório em vida, reunindo as pessoas que gostaria de ter por perto e fazendo disso um grande evento no qual ele participa em vida.

Em determinado momento, ele diz:

"As pessoas me perguntam como é estar morrendo e eu digo que não sei porque eu estou vivendo."

Ele sorri enquanto a reportagem mostra o modo como tem escolhido passar seus dias, dedicando seu tempo àquilo que lhe traz alegria, apesar da existência dos momentos dolorosos, dos medos e angústias. 

Desenvolvemos estratégias para investir na vida mesmo sabendo de nossa finitude e isso é tão magnífico.

Foi tocante encerrar o domingo com essas palavras porque a morte é um tema que tenho encontrado muito na clínica e também em minhas próprias reflexões. 

Quando vemos alguém diante de uma doença terminal, ou quando somos acometidos de alguma, frequentemente nos perguntamos como continuar vivendo sabendo da possibilidade de morrer.

Mas, no fundo, essa condição não é apenas de quem está doente.

Todos nós vamos morrer.

E nenhum de nós sabe quando isso vai acontecer. 

A morte está literalmente acontecendo o tempo todo, mas é quando ela se aproxima que nos damos conta, que nos assustamos...

É um imenso desafio para nós, seres conscientes do próprio fim, aprender a investir naquilo que é passageiro. 

O amanhã é sempre uma possibilidade, enquanto o presente é a única experiência que verdadeiramente nos pertence. 

Habitar o instante sem garantias, amar sem promessas de eternidade, construir, sonhar e existir enquanto há tempo. 

Um dia de cada vez, um instante de cada vez.

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