"Devoradores de Estrelas" emociona tanto porque conta algo da história de todos nós

Existem filmes que nos impressionam pela inteligência do roteiro, pela grandeza da produção, pela criatividade da direção ou até mesmo pela entrega dos atores. Devoradores de Estrelas é um filme que tem tudo isso, mas eu acredito que nenhuma dessas qualidades explica o tamanho da comoção que ele provocou, não só em mim, mas como pude observar, em grande parte das pessoas que assistiram.

A premissa provoca interesse logo de cara: uma "infecção" está consumindo as estrelas em uma velocidade tão grande que ameaça a vida na Terra. Cientistas do mundo todo estão reunidos para tentar encontrar uma solução para esse problema, quando descobrem um sistema solar aparentemente "imune" à infecção. É organizada uma missão de visita a esse sistema para tentar entender por que ele não está sendo afetado como os outros e, assim, quem sabe, descobrir uma "cura". É uma história muito interessante, visualmente espetacular, com viagem interestelar e seres de outro mundo, mas o curioso é que, conforme a história avança, tudo isso parece deixar de ser o centro da narrativa.

Até determinado ponto, eu estava apenas curiosa para saber o que ia acontecer: "será que iam conseguir salvar o planeta ou seria mais uma ficção científica com final triste e melancólico?". Mas então comecei a experienciar afetos diferentes e intensos um atrás do outro, me perdi do objetivo da missão e fiquei completamente entregue à experiência daquele momento.

O instante em que percebi que estava emocionalmente capturada pelo filme não foi durante uma grande revelação científica ou uma cena de ação, mas quando Rocky e Grace começaram a brincar, brigar e se provocar. Eu me peguei rindo da bobeira deles e, sem perceber, deixei de acompanhar a missão para acompanhar aquela relação.

Terminei o filme aos prantos, inundada e transbordando.

Escrevi no meu Letterboxd: "um dia quando eu parar de chorar eu elaboro melhor isso aqui... pqp".

Foi tentando elaborar essa experiência que me ocorreu uma hipótese: talvez a força de Devoradores de Estrelas esteja no fato de que toda aquela ficção científica, na verdade, encena conflitos, encontros e afetos profundamente humanos, de modo que não precisamos entender nada de astrofísica ou tecnologia para nos identificarmos com a história.

Talvez a melhor forma de explicar essa hipótese seja olhar menos para a missão espacial e mais para a trajetória de Grace. Quando fazemos isso, algumas analogias começam a aparecer quase naturalmente.

Grace acorda sem saber onde está, desnorteado, sofre muito tentando entender o que precisa fazer ali e não é difícil enxergar aí uma analogia com a nossa própria existência: todos nós também despertamos, em algum momento, no meio dessa missão chamada vida, tentando entender o que está acontecendo nela e o que esperam de nós...

Então Grace encontra Rocky, o alien em formato de rocha mais carismático do cinema, um ser completamente diferente, que fala outra língua, vive sob outras condições e dispõe de recursos que lhe são estranhos. Ainda assim, eles conseguem construir uma relação íntima, profunda e transformadora.

Aqui está algo que o filme captura muito bem: antes de aprendermos qualquer coisa sobre o mundo, aprendemos a existir em relação.

É alguém que estabelece conosco uma comuniação, apresenta uma linguagem, que responde aos nossos gestos, e é nesse encontro com outro alguém que podemos construir algum saber sobre nós e a estranheza toda que nos rodeia.

No fim, Grace e Rocky descobrem que aquilo que protege aquele sistema solar não é uma arma, nem uma tecnologia mais avançada, mas uma forma de vida presente na atmosfera do planeta.

Vida para salvar a vida!

Talvez seja essa a metáfora mais explícita do filme: assim como aquele sistema solar depende de uma forma de vida para não sucumbir à morte, nós, homo sapiens sapiens, sujeitos seres humanos, também dependemos de outras formas de vida sujeitas como a nossa. 

"Distraídos venceremos!"

Poderia ser esse o tipo de vitória de que a frase fala. 

Não a vitória de quem finalmente encontra todas as respostas, mas a de quem, enquanto procura uma solução para os grandes problemas da existência, acaba encontrando algo que muda completamente a experiência de estar vivo. 

Grace parte para salvar a humanidade e encontra um amigo e pode ser por isso que Devoradores de Estrelas emocione tanta gente: porque nos lembra, de maneira muito delicada, que a vida talvez não seja sustentada apenas pelas respostas que encontramos, mas sim pelos vínculos que construímos enquanto as procuramos. 



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